25 anos do IBM PS/2

(http://pcworld.uol.com.br/noticias/2012/07/11/25-anos-do-ibm-ps-2)
Benj Edwards, PCWorld EUA
Máquina foi uma tentativa (fracassada) de conter o mercado de clones do PC, e influenciou o computador que você usa hoje.

25 anos atrás a IBM anunciava a Personal System/2 (PS/2) uma nova linha de máquinas compatíveis com o IBM PC original que acabou por ter uma profunda influência no mercado de computadores pessoais.

Quando a PS/2 foi anunciada, em 1987, os “clones” do IBM PC – máquinas produzidas sem o consentimento da IBM, mas capazes de rodar software e hardware desenvolvido para o PC – já haviam tomado uma porção considerável do mercado de computadores pessoais. Compare os números: em 1983 a IBM tinha 76% do mercado de máquinas “compatíveis com o PC”, mas em 1986 essa participação tinha caído para 26%.

A IBM bolou um plano para retomar o controle do mercado de compatíveis introduzindo uma nova linha de máquinas – a família PS/2 – equipadas com um barramento de sistema, BIOS e sistema operacional proprietários, exigindo dos fabricantes de compatíveis o pagamento de uma quantia considerável em licenças se quisessem “entrar no jogo” da IBM. Infelizmente, para a IBM, os fabricantes dos “clones” já estavam jogando seu próprio jogo, e não mais precisavam do aval, nem do direcionamento, da IBM.

No final das contas a IBM não conseguiu retomar o mercado, que rapidamente escapava entre seus dedos. Mas a família PS/2 teve uma influência técnica duradoura sobre a indústria dos PCs, que continua até os dias de hoje.

O ataque dos clones

Quando a IBM criou o PC em 1981, ela usou um grande número de componentes padronizados e amplamente disponíveis para construir sua máquina. Praticamente qualquer fabricante poderia tê-los colocado em um computador, mas a IBM adicionou alguns recursos que deram à máquina um “toque IBM” único. O primeiro era a BIOS, um software básico que governava o funcionamento da máquina.

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IBM 5150 PC: o "PC" original, ancestral dos PCs modernos
Crédito: Ruben de Rijcke / Wikimedia Commons (CC-BY-SA)

O segundo era o sistema operacional, desenvolvido pela Microsoft. Quando a Microsoft assinou o contrato para fornecer o PC-DOS para a IBM, ela incluiu uma cláusula que lhe permitia vender o mesmo sistema operacional a outros fabricantes de computadores. Algo que ela fez quase que imediatamente após o lançamento do PC, rebatizando o sistema como MS-DOS.

Isso a princípio não era um problema tão sério, porque essas máquinas “não-IBM”, embora rodassem o MS-DOS e tivessem um processador Intel, não tinham a BIOS da IBM, e portanto não eram totalmente compatíveis com todo o conjunto de software e hardware desenvolvidos para o IBM PC. Mas à medida em que o PC cresceu, tanto em vendas quanto em influência, outros fabricantes começaram a se interessar em produzir máquinas 100% compatíveis com o modelo da IBM.

Mas antes disso, era necessário fazer a “engenharia reversa” da BIOS da IBM, ou seja, desenvolver uma cópia que funcionasse de forma idêntica, estudando apenas o comportamento da original e sem acesso a seu código-fonte, para evitar ser alvo de processos por infração de copyright e marcas registradas da IBM.

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Compaq DeskPro 386. Um "clone" do PC, e a primeira máquina com processador 386

MPC 1600: o primeiro clone

Em Junho de 1982 a Columbia Data Products fez exatamente isso e apresentou o primeiro clone do IBM PC, o MPC 1600. Empresas como a Dynalogic e a Compaq (hoje parte da HP) seguiram com seus clones em 1983 e, em breve, empresas como a Phoenix Technologies desenvolveram uma BIOS compatível com a do IBM PC que foi livremente licenciada a qualquer fabricante de hardware interessado. As portas se abriram, e em breve o mercado de máquinas compatíveis com o IBM PC não era mais dominado pela IBM.

Ao menos nos anos iniciais, o mercado existia sob influência da IBM. Modelos como o IBM PC XT (1983) e IBM PC AT (1984) trouxeram inovações consideráveis no design, que foram rapidamente assimiladas pelos clones.

Mas a liderança não iria durar para sempre, e uma mudança profunda ocorreu em 1986 quando a Compaq lançou seu DeskPro 386, uma poderosa máquina que foi a primeira equipada com o processador Intel 80386. Foi um golpe embaraçoso para a IBM, que sabia que teria de adotar medidas drásticas para solidificar seu domínio. Essa “medida” era a família PS/2, lançada em Abril de 1987 com uma intensa campanha de marketing, incluindo as estrelas da série de TV M*A*S*H, e o slogan “PS/2 It!”.

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Anúncio de lançamento da família PS/2

Os analistas e a imprensa especializada, que já tinham visto máquinas mais poderosas com preços menores, não ficaram particularmente impressionados, e todos souberam imediatamente que a IBM planejava usar o PS/2 para puxar o tapete da indústria de compatíveis. Mas as novas máquinas tinham alguns truques em suas mangas que manteriam os fabricantes de clones ocupados por alguns anos até que conseguissem alcançar a IBM.

Quatro modelos

A IBM anunciou quatro modelos de máquinas PS/2 em Abril de 1987, batizados de Model 30, 50, 60 e 80. Eles variavam drasticamente em desempenho e preço: o mais barato, o Model 30, era basicamente o equivalente a um PC XT, com um processador Intel 8086 de 8 MHz, 640 KB de RAM e um HD de 20 MB, e custava US$ 2.295, equivalente a US$ 4.642 dólares nos dias de hoje, se levarmos em conta a inflação.

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PS/2 Model 30: modelo básico era praticamente um XT

A máquina mais poderosa era o Model 80, que vinha equipado com um processador Intel 80386 a 20 MHz, 2 MB de RAM e um HD de 115 MB por US$ 10.995 (cerca de US$ 22.243 nos dias de hoje). Nenhuma das configurações incluía o sistema operacional. Era necessário comprar uma cópia do PC-DOS 3.3 separadamente por US$ 120 (cerca de US$ 242 nos dias de hoje).

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PS/2 Model 80: uma "supermáquina" com processador 386 e HD de 115 MB
Crédito: recycledgoods.com

Cada modelo na linha incluía pelo menos um recurso novo entre as máquinas da IBM, e no mercado em geral. A seguir iremos discutir estes recursos e como eles afetaram a indústria dos PCs como um todo.

Sistema de I/O integrado, novo padrão de memória

Do IBM PC original, em 1981, ao IBM PC AT, em 1984, a IBM preferiu integrar o mínimo de recursos possível à configuração base de suas máquinas. Em vez disso, ela permitia que os usuários as melhorassem com “placas de expansão” plugadas a slots na placa-mãe. Na prática isso significava que um IBM PC de 1981, que tinha cinco slots, tinha pouco espaço para expansão, visto que em uma configuração comum na época eram necessárias quatro placas: placa de vídeo, controladora de disco, interface serial e interface de impressora.

Com o PS/2 a IBM decidiu integrar as placas de I/O (entrada e saída) mais comuns na própria placa-mãe. Cada modelo da família PS/2 tinha uma porta serial, porta paralela, conector para mouse, placa de vídeo e controladora de disquetes integrada, o que liberava os slots internos para outros usos.

Computadores na família PS/2 também incorporaram outros avanços, como a interface de comunicação serial (UART) 16550, muito útil na comunicação em alta-velocidade com acessórios como modems, bem como pentes de RAM SIMM de 72 pinos. Com o tempo, ambos os itens se tornaram padrão em toda a indústria.

Portas PS/2 para teclado e mouse

Vale analisar em mais detalhes a porta para mouse que mencionei anteriormente. Cada máquina da família PS/2 tinha uma nova porta de teclado e uma nova porta para mouse, ambos com conectores redondos “mini-DIN” de 6 pinos.

A IBM queria que o mouse fosse uma parte importante do sistema PS/2. A empresa prometeu um novo sistema operacional com interface gráfica (sobre o qual falaremos mais tarde) e janelas, que iria competir com o oferecido pelo Macintosh, da Apple.

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Porta PS/2 para teclado e mouse em um PC moderno

Mesmo hoje muitos PCs tem “portas PS/2” para teclados e mouses, aquelas redondinhas nas cores verde e roxa na traseira do micro, embora recentemente elas estejam perdendo espaço para as portas USB, mais versáteis.

Novos drives de disquete

Cada modelo da linha PS/2 tinha um drive de disquete de 3.5 polegadas, conhecido na época como “microfloppy”, uma tecnologia desenvolvida pela Sony e que, até então, só era usada com algum destaque no Macintosh.

O PS/2 Model 30 tinha um drive que era capaz de ler e gravar dados em disquetes de dupla densidade com capacidade para 720 KB. Os outros modelos introduziram algo completamente novo, um drive de disquete de alta densidade com capacidade para 1440 KB (1.44 MB) que se tornou o padrão em todos os PCs nos 20 anos seguintes.

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Disquete de 3.5": outra inovação introduzida com o PS/2
Crédito: Afrank99 / Wikimedia Commons (CC-BY-SA)

Até então a IBM favorecia os tradicionais disquetes de 5.25 polegadas, e esta drástica mudança no formato inicialmente causou um grande incômodo para aqueles usuários que tinham uma grande biblioteca de software em disquetes de 5.25 polegadas.

A IBM oferecia um drive externo opcional de 5.25 polegadas para as máquinas da linha PS/2, mas os fabricantes de clones rapidamente começaram a adotar seus próprios drives de 3.5 polegadas, e logo muitos softwares começaram a ser distribuídos com disquetes tanto de 5.25 quanto de 3.5 polegadas na caixa.

VGA e MCGA

De certa forma a família PS/2 é mis notável pela introdução do padrão de vídeo Video Graphics Array, ou VGA.

Entre os vários modos de vídeo disponíveis, o VGA era capaz de exibir imagens com resolução de 640 x 480 pixels e 16 cores, ou 320 x 200 pixels e 256 cores, o que era um salto significativo em relação ao que era possível nos PCs (e compatíveis) da época. Ele também era totalmente compatível com dois outros padrões gráficos mais antigos desenvolvidos pela IBM, o Enhanced Graphics Adapter (EGA) e o Color Graphics Adapter (CGA).

A família PS/2 também foi a primeira a usar o que é rotineiramente chamado de “conector VGA”, o conector azul em forma da “D” com 15 pinos que também se tornou um padrão na indústria, e pode ser encontrado em PCs e monitores até hoje.

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Porta VGA: entre nós desde 1987

O PS/2 Model 30 tinha um controlador de vídeo em outro padrão, o MCGA, que também podia exibir imagens com resolução de 320 x 200 pixels e 16 cores, mas seu modo de alta-resolução era monocromático com resolução de 640 x 480 pixels. A IBM só inclui o padrão MCGA nas versões mais baratas do PS/2, e como os “clones” nunca o adotaram ele acabou sumindo do mercado.

Arquitetura Micro Channel

A jóia na coroa do PS/2 deveria ser seu novo barramento de expansão, batizado de Arquitetura Micro Channel (MCA). Todo computador na família PS/2, com a exceção do Model 30, tinha slots MCA internos para placas de expansão.

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Uma placa de rede no padrão MCA

O Model 30 incluia três slots ISA – o tipo usado no IBM PC original e depois modificado para uso na família PC AT. Não é surpresa que o resto do mercado de clones do PC também usasse o barramento ISA, para que qualquer máquina pudesse usar as placas desenvolvidas para o PC.

Mas em meados da década de 80 o barramento ISA se mostrou lento e começou a limitar as possibilidades de hardware. Com o PS/2 a IBM viu a chance de criar um barramento completamente novo e melhorado, cujo design ela poderia controlar e licenciar estritamente, reduzindo assim a capacidade da indústria de clonar as máquinas PS/2 sem pagar uma licença à IBM.

O novo barramento, chamado de MCA, aumentava a largura de dados de 16 para até 32 Bits, permitindo que uma quantidade maior de dados trafegasse em determinado momento, e era mais rápido, 10 MHz contra os 8 MHz do ISA. O MCA também introduziu uma forma limitada de “plug-and-play”: cada placa tinha um identificador único de 16 Bits que poderia ser usado por uma máquina PS/2 para identificá-la e configurá-la automaticamente.

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Anúncio da IBM exalta as virtudes do barramento MCA nos PS/2

Na teoria este método parecia muito melhor que a configuração por jumpers (pequenos contatos na placa, que eram fechados ou abertos) das placas ISA, mas na prática a coisa não funcionava direito. Os “IBM Reference Disks” (discos contendo utilitários que eram usados para configurar os parâmetros básicos da máquina) antigos não conheciam os identificadores de placas novas, o que exigia que a IBM lançasse constantes atualizações dos discos. Ou seja, a não ser que você tivesse sempre a versão mais recente à mão (algo impossível em uma era antes da Internet) provavelmente iria precisar de discos especiais para usar a sua nova placa de expansão MCA.

A indústria de clones de PCs não gostou da ameaça representada pelo barramento MCA. Um ano após sua introdução, um consórcio de nove fabricantes de clones apresentou um padrão rival chamado EISA, que expandia o barramento ISA para 32 bits com custo de licenciamento mínimo. Mas no final das contas, poucos PCs usaram o barramento EISA. Slots ISA de 16 Bits continuaram sendo o padrão até que a Intel introduziu o barramento PCI no início da década de 90.

OS/2

O MCA não ajudou a sorte do PS/2, mas outro fator colaborou para que ele afundasse: seu sistema operacional. Como mencionamos anteriormente, a IBM queria lançar o PS/2 com um sistema operacional proprietário e completamente novo chamado OS/2, que iria tirar proveito dos novos recursos do processador 386 do Model 80, fazer uso extenso do mouse e fornecer um ambiente gráfico similar ao do Macintosh.

Só tinha um problema: a IBM contratou a Microsoft, que tinha criado o PC-DOS (e o MS-DOS e o Windows), para desenvolvê-lo. Na época, a Microsoft estava passando por um estouro nas vendas de licenças do MS-DOS, que fornecia aos fabricantes de clones do PC, e um sistema proprietário não era algo de seu interesse.

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O desktop do OS/2 1.1, primeira versão com interface gráfica.
A semelhança com o Windows 3.1 não é coincidência
Crédito: GUIdebook.org

Então, quando a IBM anunciou que uma versão completa do OS/2 só seria lançada no final de 1988 (com uma versão mais simples, sem interface gráfica, disponível no final de 1987) várias teorias da conspiração circularam pela indústria.

Enquanto isso a Microsoft estava preparando o lançamento do Windows 2.0 no final de 1987, que teria a maior parte dos recursos anunciados para o OS/2 um ano antes do sistema da IBM. A situação foi uma dolorosa lição sobre não deixar seu concorrente criar seus produtos. Surpreendentemente a IBM não reconheceu, nem agiu contra, este conflito de interesses.

O fim do domínio da IBM sobre os PCs.

Após o lançamento a família PS/2 vendeu bem por um curto período de tempo (cerca de 1.5 milhão de unidades foram comercializadas até Janeiro de 1988), mas seu alto custo em comparação aos compatíveis de outros fabricantes acabou fazendo com que os usuários se desinteressassem.

Pior ainda para a IBM, praticamente cada um dos avanços feitos na linha PC/2 foram igualados, copiados ou até superados pelos fabricantes de clones. As vendas de máquinas PS/2 caíram dramaticamente durante o restante da década de 80, e a linha acabou se tornando um embaraçoso desastre de vendas para a IBM. Em 1990 já estava claro que a empresa não mais liderava o mercado de compatíveis. E em 1994 a Compaq superou a IBM como a fabricante número 1 de PCs nos EUA.

A IBM continuou no mercado de PCs até 2004, quando vendeu a divisão de computadores pessoais para a Lenovo. Até lá a IBM conseguiu emplacar mais algumas inovações em padrões gráficos e computadores portáteis (especialmente com a venerada linha ThinkPad), mas nenhuma de suas máquinas após o PS/2 teve o mesmo impacto das lançadas no início e em meados da década de 80.

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