Uma “fábula” sobre acessar e mapear unidades de rede do Windows no Linux

Autor: Pedro Araújo <pedro-araujo at
pedro-araujo.com>

Mais um pouco das minhas histórias

Esse meu artigo é uma espécie de versão estendida e comentada a partir
de uma dica que me ajudou muito, publicada
pelo Anderson Nascimento
no VOL. O crédito original em si da dica é
dele, eu apenas coloquei alguns detalhes a mais, fiz algumas
comparações técnicas sobre o trabalho com redes híbridas, mas o contexto
envolvido acabou por aguçar meu impulso de opinar e mais uma vez
defender o software livre com paixão.

Bem, se você não tem muito tempo pra opiniões, pode ir sem
constrangimento até o fim do artigo e ver somente a dica, mas eu não
consigo me controlar, preciso falar, quero dizer, escrever… Eu gosto
de compartilhar experiências, e no meu trabalho tenho tido oportunidades
satisfatórias de me dedicar e aprender um pouco mais sobre o nosso
querido GNU/Linux.

Temos migrado gradativamente algumas máquinas do Windows XP para o Linux Ubuntu 10.04 LTS
Lucid Lynx, o que por si só já tem sido bem proveitoso por trazer
consigo a solução de velhos problemas com drivers, compartilhamento de
impressoras… E nem precisa falar do fator segurança, imunidade à
vírus, redução de custos, organização dos sistemas de arquivos,
permissões de acesso etc…

Essa nova etapa profissional abriu um pouco mais meus horizontes sobre o
tema. Apesar dos vários anos trabalhando com informática, não posso
negar que quase sempre via as coisas sob um prisma de programador, e
agora que tenho trabalhado mais com a "parte final" da coisa, ou seja,
muito mais no lado operacional, lidando com o "mundo real", tenho tido
muito mais motivos pra defender o Linux, motivos que vão além dos
padrões teóricos de projeto etc.

E já que estou falando de "mundo real", outro aspecto legal, que já é
fato conhecido, mas que eu agora tenho constatado na prática, é a nova
"expectativa de vida" que temos dado a desktops que já têm um certo
período de uso e já não são mais "top de linha", máquinas boas, só que
rodavam o Windows XP já "capengando", ponto de partida dessa nova fase,
viviam precisando ser formatadas, até que conheceram o Tux – eu cogitei
até usar o Lubuntu (versão mais leve e "seca" do Ubuntu, que usa
ambiente gráfico LXDE e pode rodar até em K6-II 500 MHz, por mais que
não seja o ideal), mas optei pela facilidade da versão principal, o
Ubuntu, com um ambiente GNOME completo (OpenOffice.org, Firefox,
Evolution, Central de Programas, multimídia) e mesmo assim o desempenho
obtido foi muito satisfatório.

Nessa nova caminhada, começamos com um servidor (na verdade um PC um
pouco mais "turbinado" que foi batizado como servidor, com êxito) e
agora temos visto a compensação também nos terminais. E eu pessoalmente
estou feliz, pois isso tem gerado interesse de meus amigos, dentro e
fora do ambiente profissional, em adotar Linux nas suas vidas.

Mas, deixando a subjetividade de lado (sé é que eu consigo fazer isso),
voltando para o exemplo prático que embasa meus argumentos, em um
processo de migração é bem provável que por um tempo os ambientes
Windows e Linux ainda convivam lado a lado (e talvez por questões óbvias
isso pode durar para sempre [como eu queria que fosse deferente]). Aí
surgem várias questões, uma delas é o compartilhamento de arquivos,
pastas, impressoras, recursos…

Bem, não vou falar do Samba (usamos ele aqui pra compartilhar arquivos
em impressoras do Linux para o Windows), ele é realmente fantástico e
suplanta uma deficiência de portabilidade do próprio Windows – ora pois,
vejamos o exemplo do aclamado Windows Seven, que não consegue
"enxergar" direito os compartilhamentos de versões anteriores do sistema
da MS na rede (se duvida tente fazer um computador com o Seven imprimir
em uma impressora plugada num XP, assim de primeira; eu garanto que é
mais fácil fazer isso com Linux) – o Samba faz Windows enxergar Linux.

Agora o contrário é mais impressionante, voltando o foco para o
compartilhamento de unidades, arquivos e pastas. O Windows nativamente
só consegue enxergar sistemas de arquivos FAT e NTFS (sistemas de
arquivos da Microsoft), que inclusive são mais limitados em termos de
armazenagem e integridade. Já o Linux trabalha com vários tipos de
sistema de arquivos nativamente, adotando os EXT como padrão – o Ubuntu
10.04 já usa a versão EXT4 cuja capacidade e integridade são
incomparáveis – e enxergar um sistema NTFS (adotado a partir do Windows
2000 [na verdade este sistema vêm lá do Windows 4.0 NT, um "Windows 95"
voltado pra redes]), isso o Linux tira de letra, basta montar, não
precisa de nenhum outro artifício.

Há quem questione o fato de o padrão para fazer esta operação seja via
terminal (aquela velha ladainha do que é amigável ou não). E sei, para
fazer este processo no Windows é "só" abrir o Explorer e acessar o menu
"Ferramentas – Mapear unidades de rede…", mas convenhamos, isso não é
algo que uma pessoa faça todos os dias, na maioria dos casos, no máximo,
o cara vai mapear uma, duas ou três unidades compartilhadas na rede e
nunca mais vai mexer – pelo menos era pra ser assim se o Windows e sua
estrutura de rede fosse mais estável, mas a princípio é assim (sem
contar que isso e todas as características "simples e bonitinhas" do
sistema da janelinha pode ser um perigo na mão de usuários "MOMY" [termo
que eu conheci pelos fóruns do VOL, que designa aqueles para os quais
informática é apenas MediaPlayer, Orkut, MSN e YouTube], e até mesmo na
mão do pessoal do "sindicato dos sobrinhos" e suas técnicas que fazem do
Windows um ambiente mais insalubre do que ele é por si só
originalmente).

Como eu disse, durante os últimos anos eu trabalhei integralmente como
programador, isso significa estar numa sala, fechado, sem ver gente,
lidando só com códigos e problemas o dia todo (parece dramático, mas a
realidade é quase isso mesmo), a agora que, digamos, tenho visto mais
gente, (com o perdão da expressão e sem nenhuma prepotência, apenas
ilustrando mesmo) agora que tenho mais contato com os "pobres mortais
usuários de computador", e é interessante olhar pra cara de espanto das
pessoas com aquela exclamação estampada:

"Cara, você usa Linux!!! Ele faz tudo isso!!! Realmente ele não é tão
difícil assim!!!"

Tanto usuários comuns como os profissionais da área, é engraçado, mas
eles parecem não acreditar. Mas o melhor é ver que na prática e provar
que cada vez mais o Windows "faz menos falta". Eu tenho constatado que,
tanto para as atividades mais simples do dia-a-dia, como enviar e-mails,
acessar a internet, redigir documentos, fazer planilhas, ouvir músicas,
imprimir…, até para as atividades mais complexas, como a implantação e
manutenção de uma estrutura de rede e servidores com políticas de
acessos, segurança e tudo mais, o Linux é de fato mais fácil.

De todos os computadores (alguns até antigos) que nós migramos pra
Ubuntu, nenhum deles precisou de CDs de instalação para drivers, tudo
funcionou de primeira, o que apareceu de diferente foi resolvido com o
mínimo esforço (quase nada), e eu sei que tudo seria mais complicado com
Windows. E na "ponta do iceberg", depois de (pra não ser tão radical
nem causar choque) colocarmos uma casquinha azul no Ubuntu – pra ser
mais exato tô falando do pacote de tema XPGnome – o usuário praticamente
não nota diferença alguma (a casca parece a mesma, mas o sabor é bem
melhor).

E o que isso tem a ver com montar unidades de rede!? Bem, tem a ver com o
terminal, com a velha discussão do que é mais amigável contra o que é
mais complicado, do que precisa e do que não precisa, de quem é quem.
Ora, foi aí que eu cheguei a mais outra conclusão. A informática é cheia
de contra-sensos, dentre eles aquele que leva as pessoas, e, mais
alarmante, os profissionais da área, a confundirem o que é simplicidade
com o que é banalidade.

O ato de clicar, alavancado pelo "next, next, finish" se tornou tão
banal que faz com que pensemos que coisas que dão mais trabalho de fazer
clicando e arrastando pareçam mais simples do que digitar uma linha de
comando. Em termos, temos visto a propagação de uma geração, digo isso
mais dois profissionais, pois os usuários finais não são obrigados a
saber de tudo (assim como eu não sou obrigado a ser um piloto de avião
pra ser passageiro de um), uma geração de pessoas medíocres, que não têm
ideia do que está fazendo, mas se mete a fazer dando parecer de que tá
por dentro de tudo – é o mesmo que eu querendo pilotar um Airbus A-380,
dizendo que eu sou o bom porque "vôo na minha moto 150 cilindradas", e
que o piloto tá por fora (foi só um exemplo, eu mal chego aos 40 Km por
hora na minha moto; primeiro porque respeito a lei e depois porque não
tô a fim de morrer).

Ok, voltemos à parte técnica. Exemplificando, no Linux (e vocês sabem
que meus exemplos são todos usando a minha distro, Ubuntu, considerada
uma distro mais "amigável" usada por iniciantes), para montar uma pasta
compartilhada na rede do Windows, basta editar o arquivo fstab para que
que a conexão com a unidade seja feita automaticamente no boot,
indicando o ponto de montagem.

Primeiro você deve criar uma pasta onde a unidade será montada (observe
que na raiz do sistema de arquivos já temos um diretório /mnt/, então o
ideal é que esta pasta pra montagem seja criada dentro dele), conforme o
exemplo:

$ sudo mkdir /mnt/ponto_de_montagem
$ sudo chmod 777 -R /mnt/ponto_de_montagem

Agora sim vamos editar o arquivo fstab:

$ sudo gedit /etc/fstab

Tendo aberto o arquivo pra edição, informando a sua senha e tudo mais
(eu usei o gedit, mas você pode usar o editor nano, por exemplo), vá até
o fim do arquivo e adicione a seguinte linha após a última linha do
arquivo, conforme o exemplo:

//192.168.x.x/Y /mnt/ponto_de_montagem cifs
username=Usuario,password=senha,user,dir_mode=0777,file_mode=0777 0 0

Explicando o que foi feito, informamos o host [//192.168.x.x], o nome do
compartilhamento do Windows [Y], o ponto de montagem na máquina local
[/mnt/ponto_de_montagem], o tipo do sistema de arquivos [cifs] – esse
código é o usado para unidades NTFS não locais – e por fim os parâmetros
de autenticação e permissão de acesso (o que interessa é a parte
"username=Usuario,password=senha", que passa o usuário e a senha
definido no Windows para acessar o compartilhamento).

Um exemplo completo de como fica o fstab depois disso é assim:

# /etc/fstab: static file system information.
#
# Use ‘blkid -o value -s UUID’ to print the universally unique
identifier
# for a device; this may be used with UUID= as a more robust way to name
# devices that works even if disks are added and removed. See fstab(5).
#
# <file system> <mount point> <type> <options>
<dump> <pass>

proc /proc proc nodev,noexec,nosuid 0 0
/dev/sda1 / ext4 errors=remount-ro 0 1
# swap was on /dev/sda5 during installation
UUID=a70a94b0-942b-48ad-b2fb-46c633f5938e none swap sw 0 0
//192.168.x.x/Y /mnt/ponto_de_montagem cifs
username=Usuario,password=senha,user,dir_mode=0777,file_mode=0777 0 0

Aqui vemos a montagem das unidades locais e na última linha a nossa da
rede. Ok, feito isso, e se tudo estiver correto, basta reiniciar o
computador que a unidade será montada automaticamente e aparecerá em
computer:/// (que pode ser acessado no menu superior em Locais –
Computador) ou diretamente na sua área de trabalho, se assim
configurado.

É claro que se você quiser acessar esporadicamente esta unidade de rede
não precisa fazer todo este processo, basta, por exemplo, abrir o
Nautilus (navegador de arquivos) e digitar:

smb://192.168.x.x/Y

na barra de endereços para exibir o conteúdo dela (lembrando que a
partir do Ubuntu Lucid 10.04 a barra de endereços do Nautilus está
oculta por padrão e até o botãozinho para exibi-la foi tirado, então
você deve pressionar Ctrl+L para ativá-la). Isso é o mesmo que
digitar…

\\192.168.x.x\Y

…no Windows Explorer – e no caso do Ubuntu, ou qualquer Debian-like ou
até mesmo outra distro que use o ambiente GNOME, este mesmo acesso pode
ser feito com opções avançadas usando o menu "Locais – Conectar ao
servidor…".

Mas, voltando à montagem automática, você ainda pode criar um atalho pra
acessar esta unidade de rede Windows montada em sua área de trabalho,
painel do GNOME ou até mesmo num item do menu superior criando um novo
lançador do tipo "Localização" informando "/mnt/ponto_de_montagem" no
campo do comando.

Depois de um exemplo deste alguém pode estar dizendo: "tantos comandos,
que coisa complicada". Bem, eu não pediria pra minha avó montar uma
unidade no Linux ou compilar um kernel, só defendo "cada macaco no seu
galho", "cada um no seu quadrado".

É claro que o Windows passa a impressão de ser mais fácil, afinal ele é
voltado totalmente para o usuário final, tanto que ele pode ser uma
maravilha em casa, a mais completa fonte de entretenimento, mas, na
outra ponta, a menos que se invista muito, mas muito mesmo, numa
política de TI com profissionais habilitados para tanto (coisa que as
grandes empresas que adotam Windows fazem), tenho visto cada vez mais
que o sistema da MS é uma verdadeira dor de cabeça pras micro e pequenas
empresas, e até mesmo pras de médio ou maior porte, primeiro porque o
pessoal só "quer que funcione", não importa como, depois porque a
responsabilidade cai em mãos contratadas para realizar o serviço, mas
que não têm capacidade para fazê-lo, e talvez nunca chegarão a ter tal
capacidade porque, por mais que sejam "profissionais", acabam atrofiando
seu potencial se agarrando aos subsídios destinados aos leigos.

É claro que não espero que todos concordem comigo, estou acostumado a
ser polêmico por falar demais, mas provavelmente se você que lê chegou
até este ponto do artigo é porque você é um profissional da área ou um
usuário muito interessado. Talvez, e principalmente se você for um
técnico que trabalha com Windows, você torceu o nariz para o terminal e
não consegue ver onde está o lado fácil do Linux que eu falei.

Pense mais alto, nem sempre fazer a coisa do jeito aparentemente mais
fácil é o mais adequado, e aquilo que você acha ser uma grande vantagem é
simplesmente o apoio pra uma preguiça que impede seu crescimento, que
vai te deixar à parte do que realmente é melhor, em troca das falsas
aparências.

Enfim, é isso, além da dica ficou aqui um pouco da minha opinião e dos
meus argumentos a favor do Linux, porque ele é melhor, mais bonito, mais
poderoso, mais simples e bem mais profissional do que qualquer outro…


http://www.vivaolinux.com.br/artigo/Uma-fabula-sobre-acessar-e-mapear-unidades-de-rede-do-Windows-no-Linux

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