Software livre, capitalismo, socialismo e um possível caminho novo

Autor: celio ishikawa <celioishikawa at yahoo.com.br>

Más experiências

A disseminação da informática é uma tendência geral, mas dessa
tendência vamos separar duas frentes: do lado da iniciativa privada,
significava que muita gente passaria a comprar computadores e laptops
de tal modo que não só lojas de informática, mas as de eletrodomésticos
e grandes papelarias passariam a explorar o mercado. E do lado
público/estatal, significava que o computador passaria a ser uma
ferramenta importante para gerenciar a burocracia e que surge a
necessidade da inclusão digital a ser oferecida para que aqueles não
têm recursos para comprar computadores e pagar um curso de informática.

Com o movimento do software livre crescendo, encabeçado principalmente pelo sistema operacional Linux,
essa tendência geral se depara com a possibilidade de colocar um
sistema livre e barato que nasceu da colaboração de milhares de pessoas
que buscavam uma alternativa (principalmente) ao Windows da Microsoft.

Contudo, como observou a comunidade do software livre, o uso
do Linux por fabricantes e governos não necessariamente resultou em
experiências boas, ao contrário, algumas foram bastante traumáticas a
ponto de estimular seus usuários a comprarem o Windows pirata.

Vejamos como foram essas experiências.

Aliás um adendo: ainda que efetivamente poucos tenham visto ou
usado, um marco nessa história foi a campanha do One Laptop Per
Children (um laptop para cada criança), que chamou a atenção para o
mundo da necessidade da informática ser disseminada. Muitos políticos
entenderam o recado, e vários fabricantes viram que vender laptops
baratos era uma boa oportunidade de negócios. Se pensarmos bem, a
disseminação de netbooks se deu mais ou menos a partir desse período.
Recentemente o time da One Laptop Per Children (OLPC)
até teve de reduzir seu quadro de pessoal, pois os negócios não
avançaram muito, isso porque os governos e o mercado viram que podiam
atender essa demanda sem aderirem ao projeto.

O avanço e a popularização do hardware fez com que
computadores pudessem ser vendidos junto com eletrodomésticos e
materiais de papelaria. Isso fez com que novos fabricantes se
aventurassem no ramo e o principal diferencial que ofereciam era o
baixo custo. E uma forma de baixar o custo era o uso do Linux no lugar
do Windows.

Linux podia ser barato por ser livre, há toda uma filosofia
por trás dessa liberdade e colaboração pelo aperfeiçoamento do sistema.
Contudo, para os fabricantes só interessava a questão do custo, e
venderam muitos PCs e laptops/netbooks que bastava estar funcionando na
hora da compra pelo cliente, sem a preocupação adequada com hardwares
mais adequados ao sistema, configuração, inclusão de um pacote amplo de
programas etc. Como resultado, havia problemas de hardware, os clientes
sentiam falta de programas e quando iam ao camelô comprar programas
para Windows, não conseguiam instalar pois era outro sistema. Ao invés
da grande massa passar a admirar Linux, uma parte passou a achar que
computadores com Linux eram uma furada. Alguns fabricantes eram safados
e vendiam hardwares ruins e botavam a culpa no Linux, e o
descompromisso deles com o sistema chegava ao absurdo de oferecerem
Windows para quem pagasse a mais.

E do lado estatal, também houve traumas. Desse lado, o governo
fixava por edital tudo o que o novo sistema devia fazer, de forma que
pelo menos o hardware e os programas deveriam funcionar minimamente de
forma razoável. Contudo, o problema é que a escolha do sistema ocorria
por licitação. Os times do Debian, Slackware, Ubuntu, Fedora etc
oferecem bons sistemas e suporte, contudo, por se tratar de um time de
colaboradores espalhados pelo mundo, não é propriamente o interesse
deles participar dessas licitações governamentais. Há sim empresas
nacionais consolidadas que teriam interesse em fornecer ao governo um
atencioso serviço de implantação e suporte.

Mas, por se tratar de licitação, o governo não pode escolher a dedo um
sistema, e na licitação acaba ganhando quem oferece todos os itens
listados no edital pelo menor preço. Eis aí uma nova desgraça quando
ganham empresas formadas às pressas por sócios interessados na
licitação que também vêem o Linux apenas como redutor de custos. Se no
edital se pede um sistema que tenha processador de texto e funcione com
a impressora, eles oferecem um sistema que faz isso, mas não com o
programa mais atual nem com as últimas melhorias em comunicação com
hardware. Assim, o servidor trabalha no governo com o sistema
funcionando precariamente, e ao voltar para casa, constata que no
computador que ele comprou para si tudo funciona de forma mais moderna.

Ou então quem é atendido pela inclusão digital, lida com um sistema
muito diferente do que o mercado de trabalho usa, e fica falho o
objetivo da inclusão digital, que é de familiar as pessoas com a
informática para terem mais chances. E como o governo é formado por
pessoas, não é difícil que numa próxima licitação os políticos
determinem por edital que um dos pontos a atender seja o Windows como
sistema.

Assim, na iniciativa privada e no governo, as más experiências
com Linux (que infelizmente chegaram a milhares de pessoas) têm o ponto
em comum de verem no software livre apenas uma redução de custos.

Boas experiências (Pardus e ChromeOS)

Mas temos boas experiências (ou promessas) no setor público e privado: o Pardus Linux e o ChromeOS.

Pardus Linux é uma versão do Linux produzida pelo governo da Turquia, e tem sido muito bem vista.

Já ChromeOS é um versão que o Google está prometendo lançar, já
que o Google está lançando de tudo quanto é coisa, já tendo lançado
Chrome no ramo dos navegadores de internet, que aliás é oferecido pelo
Youtube, Gmail, buscas etc, enfim, pelas várias empresas do Google e
assim consegue facilmente um público (principalmente quando ela diz que
Youtube e Gmail são mais fáceis de visualizador pelo navegador deles
mesmos).

Nota-se que temos um governo e uma multinacional querendo
oferecer Linux. Mas a comunidade do software livre não reclama e até
agradece se eles mantiverem o código aberto e ajudarem a melhorar o
sistema e é claro, oferecerem um bom sistema para as pessoas. Na
história do software livre, esses termos já foram violados de várias
maneiras (sendo a questão do código passível de ir a tribunais), mas as
más experiências que aqui expomos pecam muito nos dois últimos.

Enfim, o comprometimento deles (governo turco e Google) é
diferente. Ainda que Pardus seja utilizado por gente fora da Turquia
(graças ao suporte multilíngue que oferecem), sem dúvida o impacto
internacional será maior no caso do ChromeOS, e alguns dirão que Linux
finalmente vai ameaçar Microsoft (pelo menos nos netbooks, que é
objetivo do Google), graças ao apoio de uma mega-multinacional.

Em outras palavras, alguns dirão que será por esse grande
interesse capitalista que o Linux atingirá as massas. Bem, mas temos o
Pardus Linux para mostrar que os governos também podem fazer um bom
trabalho se quiserem, o que também pode atingir muita gente se usarem o
sistema para gerenciar a burocracia e nos programas de inclusão
digital.

Por enquanto vamos anotar que tanto na iniciativa privada
quanto na pública as experiências podem ser boas ou ruins dependendo da
abordagem que fazem, não se trata de taxar "dá errado pois é feito pelo
governo" ou "dá errado pois só visam o lucro".

Motivações que formam o capitalismo e socialismo

Veremos o capitalismo e socialismo de formas bem simplificadas.

Por capitalismo vamos entender que é onde as pessoas criam
empresas visando o lucro. Vimos pelas más experiências que quando isso
se transforma na redução de custos, a coisa pode ser traumática.
Contudo, há os que dizem que a concorrência resulta em produtos bons, e
no caso da boa experiência, certamente há motivação do Google em
concorrer com a Microsoft e por isso desenvolverá um ChromeOS
bom. Mas é bom frisar: o Google quer concorrer com a Microsoft, e não
com os fabricantes de computadores baratos que fizeram as porcarias. Os
defensores do capitalismo falam como se a busca pelo lucro e a
concorrência por si fossem resolver tudo (a tal da autoregulação), mas
aqui estamos vendo que não é tão automático assim.

Então vejamos criticamente o socialismo também. Mas aqui vamos
simplificar e entender o socialismo como estatismo, ou seja, tendência
à estatização. Novamente, tivemos experiências boas e más.

Se bem que os socialistas podem reclamar que licitação é
concorrência entre empresas que participam dela e por isso há interesse
capitalista (que levou à desastrosa busca por redução de custos). Mas
acho que podemos manter o essencial da nossa crítica pois os
capitalistas acusam o socialismo de ser um sistema em que burocratas
não trabalham direito "enganando" (segundo eles) a população.

Assim vamos entender o socialismo assim: sistema onde as
pessoas cumprem as metas estatais, mas a meta pode ser formalmente
cumprida (pelo funcionário do governo ou empresa que participe da
licitação) sem que seja pelas melhores formas de cumprí-la.
Capitalistas costumam caçoar dos socialistas dizendo que quando o
governo estipula a meta de fornecer vidro por quantidade, os burocratas
de má vontade produziam vidros finíssimos inutilizáveis, e que quando o
governo estipula vidro por peso, burocratas produziam vidros tão
grossos e pesados que também não serviam. Dizem os capitalistas que
esse é o grande mal da falta de concorrência.

Podem dizer os socialistas que reduzir o socialismo a
estatismo além tudo está errado, pois o socialismo é o trabalho
coletivo de pessoas pelo bem de todos. Mas vou relevar isso, pois da
mesma forma capitalistas também poderiam dizer que capitalismo é o
sistema onde a busca pelo lucro e concorrência levam ao bem de todos, o
que vimos que nem sempre é assim. Sendo assim, vamos continuar com a
análise simplificada dos sistemas.

E o software livre? Nasceu da colaboração de milhares de
pessoas, mas não do Estado, ainda que seu embrião tenha sido gestado
por estudantes de universidades públicas, mas sem funções
propagandísticas (como são as inaugurações de pontes e estradas etc). O
nascimento se deu a partir de estudantes que estavam na universidade,
mas como local autônomo (a famosa autonomia universitária) e por
formados que dedicaram suas horas livres à colaboração e não visando o
lucro (que na época, devido ao sistema estar engatinhando e ser
rudimentar, não tinha nem como obter lucro mesmo, o seu desenvolvimento
posterior é que muda essa história).

Por essas características, numa simplificação exagerada (mas
bem exagerada), o software livre nasceu de um ambiente autônomo
anarquista ou comunista (entendendo comunismo como superior ao
socialismo). Com seu desenvolvimento é que empresas buscaram
compatibilizar a filosofia da liberdade e do código aberto com negócios
que rendessem lucro e os governos (órgãos mesmo e não estudantes e
professores de universidades) buscaram soluções através do software
livre.

Note que tanto empresas como governos teriam interesse em manter
fechados os softwares, mas não podem fazê-lo pois têm de respeitar o
movimento do software livre.

O fato do sistema ir se aperfeiçoando de forma aberta a
contribuidores preserva o interesse genuinamente coletivo. Se cada
colaborador tivesse sua empresa e mantivesse a melhoria para seu
próprio produto fechado para si, teríamos vários sistemas
interessantes, mas nada que essa força conjunta produziu. De certa
forma, ao termos várias empresas que concorrem entre si (vendem várias
distribuições de Linux),
mas colaboram com o desenvolvimento do sistema, temos algo como melhor
dos dois mundos, ainda que soe contraditório. Aliás devemos analisar
com cuidado mesmo, agora que o Google pretende entrar na arena: o
Google pretende assustar a Microsoft, mas penso que ela não faz questão
de tomar o lugar de outras versões de Linux. Mas se isso acontecer,
como será? Os desenvolvedores continuarão motivados em desenvolver um
Linux já que tem uma mega-multinacional à frente?

E ainda quanto ao interesse genuinamente coletivo, num país socialista,
significa que esse produto (o sistema Linux) está permanentemente se
aperfeiçoando das trocas entre quem usa e quem desenvolve. Não há como
existir um burocrata fingir que atende a população e do outro lado uma
população insatisfeita com o governo cheio de formalidades. Há os que
dizem que socialismo não funciona pois sem busca de lucro e
concorrência não há motivação. Se existir apenas um único Linux
estatal, as pessoas se sentirão motivadas a colaborar?

Como se vê, tem várias reflexões interessantes que podemos
fazer. Mas a conclusão (pelo menos minha) é a de que o sucesso do
software livre não se deve às motivações capitalistas ou socialistas
(estadistas), e tanto os que reduziram custos pensando no lucro quanto
os que buscaram atender o governo apenas formalmente produziram
resultados ruins. Na essência, na compreensão básica da filosofia do
software livre é que entidades (seja governo ou empresas) podem
produzir boas experiências para todos. Enfim, com o software livre
temos o genuíno interesse coletivo.

O software livre inspirando novos caminhos

Para os teóricos capitalistas e socialistas será bem provocante,
mas agora que vimos que a generalização "capitalismo é sempre bom/ruim"
ou "socialismo é sempre bom/ruim" dependem da cada situação, dessa vez
pergunto se as lições aprendidas com o movimento do software livre não
poderiam ser generalizadas para pensar novos caminhos por uma sociedade
ideal.

Na essência, temos um produto/serviço que uma parte desenvolve
e outra usa e que está se aperfeiçoando permanentemente, e onde se
chega ao interesse coletivo genuíno.

Vou listar algumas lições que dá para tirar disso:

  • definitivamente busca de lucro e motivação não estão sempre
    juntos. Basta vermos a história do software livre: houve grandes
    colaboradores sem tino empresarial e boas tacadas empresariais sem
    grande contribuição para o sistema.
  • olhar a interação entre unidades desenvolvedoras das versões de Linux
    e ver que não necessariamente um quer tomar o lugar do outro. Acho que
    aprender a enxergar vendo essa interação e o conjunto é um bom
    exercício.
  • é possível criar motivação sem a concorrência, é possível
    formar consórcios que não visem o lucro mas apenas desenvolver o
    projeto. E aliás, é possível nesse momento observar como andam as
    empresas e produtos que entram nesses consórcios. Vide os sistemas
    operacionais para celulares (Android, Symbian, novo Palm), o
    desenvolvimento do Firefox e novas tecnologias em que o próprio Firefox
    é um dos participantes do consórcio (como no desenvolvimento da
    tecnologia WebGL). Em suma, em administração se costuma pensar que só
    após consolidação no mercado e vencendo os concorrentes que se pode
    partir para desenvolvimento de novos produtos. Se fosse assim muitas
    tecnologias não estariam no nível que estão.
  • para os socialistas: é possível criar um ambiente de
    desenvolvimento de um produto sem que esse produto seja o único (há
    várias versões de Linux, e aliás fora o Linux há outros sistemas sendo
    desenvolvidos de forma livre).
  • até agora se costuma pensar que só após a estatização geral
    é que dá para começar a pensar no bem coletivo, mas talvez haja outras
    formas, e frise-se que não estou propondo uma terceira via
    (social-democrata) que é o pacto entre Estado e empresariado, estou
    falando de uma via para o qual talvez nem seja necessário criar ou
    alterar uma jurisdição, do estado assumir algumas coisas etc. Estou
    falando de entre as pessoas surgirem iniciativas delas mesmas mas que
    não são propriamente empresas.
  • pegando o exemplo do vidro, não se trata das pessoas
    formarem uma empresa para fornecer vidro, nem o Estado fazer tudo
    sozinho. Talvez as pessoas possam formar consórcios de aperfeiçoar o
    vidro sem visar lucro (e note-se que não é bem uma cooperativa),
    colhendo informações sobre o que as pessoas querem…
  • s universidades trabalhando de forma autônoma é que deram
    origem ao software livre, no máximo houve algum político que se gabou
    de direcionar mais verbas para universidade, mas nenhum político se
    gabou de ter criado um software livre (pelo que sei, nenhum político
    associa sua marca à de Pardus Linux, e as pessoas agradecem ao
    ex-ministro Gilberto Gil, mas como apenas como incentivador do
    movimento do software livre, e por sua vez, ninguém desse movimento,
    diferentemente do movimento sindical por exemplo, vira político
    dizendo-se "cara" do movimento)
  • mas notar que o software livre se disseminou por sua
    natureza copiável (passável de um hardware para outro). E é por isso
    que basicamente nunca o movimento de hardware livre será tão
    disseminado quanto o de software. Quando se fala em produtos, a imensa
    maioria, tal como hardwares, têm limitações físicas. Se o software,
    como produto, se desenvolveu graças à sua natureza de se replicar sem
    custos (ou melhor, existentes, mas mínimos como compra de mídias como
    CDs etc), talvez uma ajuda estatal seja necessária para simular pelo
    menos parte dessa facilidade. Por exemplo, se as pessoas querem ajudar
    a desenvolver um produto, que alguns detalhes como transporte, máquinas
    seja facilitada.
  • aliás os colaboradores são pessoas que desenvolvem melhorias
    nos seus computadores, que por sua vez são suas estações de trabalho
    (de custo reduzido) e compartilhando pela internet, mantém uma rede de
    trocas. Daí ter falado entre auxílio para maquinaria e transporte para
    simular essa facilidade no desenvolvimento de produtos físicos. E
    frisando novamente, se o computador pode ser uma estação de trabalho,
    as pessoas poderiam entrar nos consórcios sem fins lucrativos também
    porque esses consórcios são uma espécie de centros de pesquisas
    não-governamentais, mas também não-empresariais (talvez algo que mais
    se aproxime desse modelo sejam algumas incubadoras tecnológicas
    existentes em algumas grandes universidades).

Bom, esses tópicos acima fui rascunhando livremente sem
sistematizar muito, mas espero (que pretensão!) que sirvam para se
pensar em novos caminhos que podem surgir para pensarmos numa sociedade
ideal, sem nos atermos à defesa apenas teórica do capitalismo ou
socialismo (a maioria faz defesa apriorística de um ou do outro sem
pensar na execução prática).


http://www.vivaolinux.com.br/artigo/Software-livre-capitalismo-socialismo-e-um-possivel-caminho-novo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s