Engenharia social: eles sabem seus segredos e contam para todo mundo

JR Raphael, da PC World / EUA

Serviços vasculham a web em busca de informações públicas que, agregadas, revelam mais de você do que gostaria que soubessem.

EngSocial_ilustra150Recentemente
descobrimos coisas sobre o advogado que atende um dos nossos aqui na
Redação (da PC World / EUA). Coisas que não precisávamos conhecer, quem
sabe nem deveríamos ter acesso: ele tem 55 anos, ouve músicas da banda
Creed e grita como uma criança quando está em uma montanha-russa. Ah!
Também relaxa com tratamentos em SPAs e está pensando em comprar um
cortador eletrônico para os pelos do nariz. E isso é apenas o começo.

Agora vamos aos detalhes: nunca passamos um dia na companhia desse
cara. Todos esses detalhes foram obtidos a partir de pesquisas em redes
sociais na web. E sabe o que é pior: é provável que não tenha a menor
ideia de ter deixado rastros tão vívidos para trás.

Nesta época de compartilhamento social,
as pessoas esperam que alguns seus pensamentos sejam publicados. Mas
conforme vão inserindo mais e mais informações sobre elas online,
ferramentas especializadas de busca estão facilitando ainda mais
encontrar esses dados e a colocá-los juntos em um perfil super
detalhado (e potencialmente fácil de acessar) de suas vidas virtuais.

Agora reflita um minuto: mesmo que tais informações não estejam
consolidadas em uma única página, você realmente gostaria que o mundo
todo soubesse que você procurou por curas de doenças graves ou que
postou algum comentário fanático por Star Trek?

Nas entranhas da web
Você já deve ter ouvido
muitos termos surgindo em torno dessa recente e crescente ferramenta de
busca. Alguns serviços gostam de serem chamados de utilitários de
“busca social”, enquanto outros preferem a frase “busca pessoal”.

Muitos ostentam sua habilidade de procurar dados dentro das
“profundezas da web”, local aonde nem o Google chegou. “Mesmo que
muitas pessoas pensem que as buscas na web são basicamente um espelho
index do Google, na verdade existem muitas informações que o Google não
alcança”, diz Harrison Tang, fundador e CEO do Spokeo – que se descreve como um serviço de ferramenta de busca social de pessoas.

O Spokeo, assim como seus concorrentes Pipl e CVGadget,
foi desenvolvido para que você possa buscar informações sobre amigos,
parentes e até pessoas indesejadas. Porém, o Spokeo vai além do que os
outros serviços, importando todos os seus contatos de e-mail. A partir
disso, e com o pagamento de alguns dólares mensais, ele monitora
continuamente seus contatos e irá informar caso alguma dessas pessoas
faça alguma atualização ou ação em qualquer parte do mundo online – a
página inicial do site promete ajudá-lo a descobrir fotos pessoais,
vídeos e segredos de seus amigos e colegas.

Cada bit de informação – visto separadamente – pode parecer
insignificante, mas o efeito acumulativo de vê-los reunidos de modo
organizado como em um portfólio é suficiente para deixar qualquer um
preocupado.

“Identidade agregada é na verdade um novo tipo de identidade”, diz
Tang, teorizando sobre o porquê de muitas pessoas usarem a palavra
“perseguidor” para descrever o serviço. “Muitas pessoas sabem que
possuem uma página pública no MySpace e que possuem um perfil público no Twitter. Mas quando isso é combinado, cria-se na verdade uma nova identidade.”

Como esses serviços funcionam
O sistema do
Spokeo utiliza os endereços de e-mail dos seus contatos para rastrear
as atividades deles em algumas dezenas de serviços, desde blogs e redes
sociais até sites de compartilhamento de fotos e vídeos. Isso quer
dizer que as fotos dos seus filhos compartilhadas no Flickr
há dois anos (ou até mesmo aquelas imagens menos inocentes de suas
férias há anos) irão surgir logo abaixo do seu nome, segundos após
alguém pesquisar por você.

EngSocial-spokeo

Fontes menos óbvias como a lista de desejos da Amazon, um playlist no Pandora
e até mesmo uma avaliação de um filme surgirão na lista de detalhes e
que você provavelmente não tinha ideia de que ainda estivessem por aí –
coisas como (no caso do tal advogado) uma infinidade de sessões de
relaxamento e sua preocupação com a aparência do nariz.

Aliás, as informações sobre a idade do advogado foram encontradas no
seu antigo perfil do MySpace e seu comportamento na montanha-russa foi
visualizado em um vídeo no YouTube;
além da informação no Pandora de que ele gosta de Creed e que tinha
criado uma estação de rádio chamada “Spa Radio”. E quanto ao cortador
de pelos de nariz eletrônico, ele pode agradecer à lista de desejos da
Amazon por ter enviado essas informações.

Tudo à venda
Outros serviços também acessam os
mesmos dados e então vendem essa informação sob o nome de pesquisa de
marketing. Um claro exemplo é a Rapleaf, empresa que descreve seus serviços como “consultor de dados e pessoas”. Os clientes pagam milhares de dólares para receber um perfil social detalhado compilado de indivíduos de sua própria base de dados.

Assim como o Spokeo, as informações estão todas publicamente
disponíveis – o Rapleaf apenas coloca todas juntas. “Os dados que as
pessoas postaram estão lá para qualquer um acessar e ver”, diz Joel
Jewitt, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da empresa.
“Contanto que você não vá além deste ponto, esta é a norma da
privacidade hoje em dia”.

EngSocial-rapleaf

De acordo com Jewitt, a maioria dos clientes da Rapleaf está apenas
tentando entender como usar as mídias sociais mais efetivamente para o
marketing. Um fabricante de carros, por exemplo, talvez queira saber
que tipos de carros seus clientes estão procurando e discutindo em
serviços sociais na internet. De posse da lista dos e-mails dos
clientes da empresa, o Rapleaf vasculha na web e rastreia as
informações, pessoa por pessoa. “É basicamente o padrão de espionagem
na web”, diz Jewitt. “Nós recriamos uma forma automática de como uma
pessoa do governo federal faria se estivesse procurando por isso.”

Exposição eletrônica
Qualquer que seja o foco,
usuário final ou corporação, os serviços têm uma coisa em comum: ao
contrário das ferramentas de busca pública do passado, esses novos
utilitários constróem um dossiê altamente detalhado sobre você
baseando-se em informações que você mesmo publicou – uma circunstância
que pode deixá-lo com um leve sentimento de desconforto.

“O que eles fazem é tornar palpável a onipresença da internet e as
mudanças de direção que o mundo toma”, diz o especialista em
privacidade na internet Kevin B. McDonald, também vice-presidente
executivo da Alvaka Networks, uma empresa de gerenciamento de rede.
“Eles transformam todo o conceito de compartilhamento de informações e
as aproximações sem barreiras que a internet proporciona em algo muito
real para as pessoas.”

E a realidade pode ser dura se essa informação for absorvida pelas
pessoas erradas: um cliente curioso, um chefe atrás do passado do
funcionário, ou qualquer outra coisa que a imaginação permitir.  Um
estudo recente apontou que metade dos usuários britânicos da internet
admitiram tê-la usado para procurar informações de algum conhecido.

A facilidade com que alguém pode monitorar cada passo virtual que
você dá certamente agrega uma nova dimensão da ideia da fixação. “É um
pouco perturbador”, diz Marc Rotenberg, diretor executivo do Eletronic
Privacy Information Center. “Se a informação é distribuída, então esta
é na verdade uma forma de privacidade. Mas quando ela é reunida em um
único lugar, então se criam novos riscos.”

Rotenberg não concorda com empresas que juntam informações pessoais,
mas públicas, para criar um perfil único. “O fato de que alguém tornou
algo público não significa que outra pessoa possa vender isso”,
contesta. “Acredito ainda que se for existir um mercado para dados
pessoais, o usuário deveria receber uma porcentagem sobre qualquer
valor que esse dado possa ter.”

Assumindo o controle
Vale lembrar que nenhum
desses serviços está fazendo algo ilegal. As informações que eles
juntam são dados que qualquer pessoa que saiba onde estão – e tem tempo
para fazer isso – poderia encontrar.

Portanto, em vez de ignorar o imenso arquivo que foi coletado sobre
você, McDonald sugere que você o utilize como uma ferramenta para
entender e controlar sua identidade online. “Cheguei a um ponto onde
antes de ser guiado pela internet, eu pretendo utilizá-la para chegar
onde quero”, afirma. “Tudo o que você pode fazer é aprender a conviver
com isso. Essas são as delimitações do mundo em que vivemos”, completa
McDonald.

Nota do editor: Enquanto apurava esta matéria,
JR Raphael descobriu uma estação de rádio do Coldplay que eu criei no
Pandora em 2006; descobriu que procurei por um cabo de áudio 3.5mm
compatível com o iPod em 2007; e descobriu qual era o meu nome de
usuário do site StumbleUpon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s