Pingüim bom de briga

Por Luís Fernando Tinoco

O Linux evolui, ganha espaço nas empresas, cresce entre os desktops domésticos com o programa Computador para Todos e expande sua atuação para os celulares

pinguimbomLinux não é mais o mesmo. Se você ainda enxerga o sistema operacional de código aberto como um punhado de diferentes distribuições difíceis de usar, mais difíceis ainda de instalar, é melhor rever seus conceitos. O Linux, que tem como símbolo o simpático pingüim, amadureceu, já disputa espaço para ser o encarregado das mais importantes aplicações de empresas de todos os portes e, o que é mais significativo, gigantes como IBM, HP e Novell vêm injetando milhões de dólares no sistema, para desenvolvê-lo, comercializá-lo e oferecer suporte técnico completo aos usuários. O amplo domínio do mundo Windows não está em jogo, mas ganha, pela primeira vez, um concorrente importante.

Segundo a consultoria IDC, 9 milhões de computadores com o sistema operacional criado pelo finlandês Linus Torvalds serão vendidos pelo mundo em 2006, número que saltará para 17 milhões em 2008. Isso representará menos de 4% do total nas Américas e cerca de 9% no resto do planeta. Os dados indicam que a adoção nos desktops ainda não decolou, mas ganha fôlego. No mercado de servidores, porém, a história já é bem diferente. A IDC entrevistou 5 mil desenvolvedores de 116 países e concluiu que o uso de código aberto atinge quase três quartos das empresas.

O Gartner Group prevê que entre 2008 e 2010 haverá um confronto efetivo entre o Linux e o Windows. “As diferenças entre as duas plataformas serão colocadas em teste nos próximos cinco anos. A contínua maturação, combinada com o envolvimento ativo de grandes fabricantes no aprimoramento, levará sua funcionalidade e performance a igualar-se à do Unix e a ameaçar o Windows em inovação nesse período”, afirma o instituto. Segundo dados da IDC, o total movimentado pelos servidores com o sistema da Microsoft foi de US$ 17,7 bilhões no ano passado. O Unix movimentou US$ 17,5 bilhões e o Linux, com um crescimento de 20,8%, atingiu 5,7 bilhões.

A IBM é uma das gigantes da tecnologia a colocar suas fichas no sistema operacional de código aberto. Depois de nove anos injetando altas somas na plataforma, a empresa sinaliza que o momento é favorável para expansões. Em junho, por exemplo, anunciou a ampliação de seu Linux Technology Center de São Paulo. Em vez de 12, agora são 40 pessoas trabalhando em melhorias no sistema, e o investimento recebeu cerca de US$ 2 milhões extras.

“O que vemos é a continuidade de um momento iniciado no Brasil, de forma um pouco defasada, em 2004. Há um processo de amadurecimento muito forte”, declara Haroldo Hoffman, diretor de iniciativas estratégicas da IBM. “No início, o Linux ficava na periferia, em servidores de internet e no firewall. Agora, começa a migrar para as demais aplicações. Ele está entrando muito forte em todas as indústrias verticais.” A receita da IBM com produtos e serviços para Linux cresceu 36% no segundo trimestre de 2006, em relação ao mesmo período de 2005.

A Novell é outra grande empresa de TI a apostar no Linux. “Ele é um fato. Há grandes clientes usando o sistema. A Telemar usa Linux no mainframe. Toda a missão crítica da Casas Bahia roda em Linux, tanto os servidores quanto os desktops, conta Ricardo Fernandes, presidente da Novell Brasil. “No começo, tinha um caráter ideológico. A partir do momento em que empresas de porte entram no mercado, elas dão outra característica”, ressalta.

A Novell, pelo segundo ano consecutivo, vai dobrar sua receita com aplicações e serviços para Linux. Para Fernandes, as empresas estão percebendo que a melhor solução é composta em parte por softwares proprietários e em parte por programas de código aberto. “Defendemos uma bandeira tecnológica, não ideológica.

Quem não tem alternativa está fadado a ficar preso a uma solução proprietária. O que costumamos dizer é que, por tudo que já foi mostrado pela Microsoft, a adoção do Windows Vista também será uma quebra de paradigma. Então, se vai haver quebra de toda forma, por que não agregar uma solução de confiabilidade, custo e disponibilidade superiores?”

Rumo ao desktop

Enquanto se fortalece como opção para servidores corporativos, o Linux também busca ampliar suas fronteiras. As principais distribuições do sistema lançadas durante este ano apresentam novidades e concentram boa parte de seus esforços em melhorar o uso do Linux nos desktops. O processo de instalação vem sendo simplificado, as interfaces gráficas ganham em funcionalidade e o uso de acessórios e aplicações multimídia, como telefonia via internet e câmeras digitais, está cada vez mais automático. Ao que tudo indica, porém, dificilmente ele terá um grande impacto nos computadores domésticos a curto prazo.

“A migração do desktop funcionará bem quando as empresas aumentarem o uso. A partir do momento em que o funcionário adotar o Linux no trabalho, aí achará normal também usá-lo em casa”, diz Fernandes da Novell. “Por enquanto, nos desktops ele é visto com certa desconfiança. Há um interesse forte em áreas específicas, como nos call centers, que têm um problema de custo muito grande e precisam de uma aplicação simples e confiável, para tarefas repetitivas.”

Mesmo assim, a Novell encerrou o ano passado com uma base de 8 mil estações Linux instaladas em seus clientes, crescimento de 30% sobre 2004. Muitos novos usuários de computador conheceram o Linux neste ano por causa do Computador para Todos, programa de PC popular do governo brasileiro que envolve a venda de máquinas com melhores condições de financiamento, pagamento parcelado e redução de impostos para os fabricantes de computadores. Segundo dados da consultoria IT Data, nos primeiros meses de 2006 foram comercializados 240 mil desktops com o sistema operacional de código aberto, dentro do programa do governo. Esse valor representa 18,5% do 1,3 milhão de computadores vendidos para o mercado doméstico no período.

“O Computador para Todos impulsionou a venda no varejo e ajudou a popularizar o Linux. Mas vale lembrar que em 2006 aconteceu uma explosão de vendas de desktops, o que inclui máquinas com o Windows e com o Linux”, afirma Luiz Albuquerque, gerente de produtos do Grupo de Sistemas Pessoais da HP, uma das empresas participantes do projeto federal.

Segundo Albuquerque, a explosão aconteceu por causa dos computadores populares e porque o governo aumentou bastante o controle do contrabando. Por último, e não menos importante, o Linux está se tornando, de forma bastante silenciosa, a principal opção de sistema operacional para equipamentos de tecnologia embarcada, como telefones celulares. Segundo um estudo da consultoria Diffusion Group, a participação dessa plataforma na área de dispositivos móveis dobrou em 2005, com 23% do mercado.

Em 2010, já deve superar o Symbian, atual líder. Sua excelente interoperabilidade e a facilidade em criar versões modulares ou sob medida do sistema fazem com que ele equipe uma quantidade cada vez maior de aparelhos. Sua força, nesse caso, é possuir dezenas de diferentes distribuições, mas todas apoiadas sobre um núcleo comum e sobre padrões abertos, que qualquer fabricante pode entender como funcionam, adotar e desenvolver seu produto a partir deles.

Confira a reportagem completa sobre a popularização do Linux na edição de outubro da PC World. Já disponível nas bancas.

 

 

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